A Ilha da Noite

Para aqueles que amam o maravilhoso mundo criado pela Mestra inigualável Anne Rice. Lestat, Louis, Armand, Marius, Mayfairs, A Talamasca... Todos estão aqui.
 
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 Os Anéis de Sangue e Ouro — PARTE II

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Danni de Lioncourt
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MensagemAssunto: Os Anéis de Sangue e Ouro — PARTE II   1/15/2013, 8:21 pm

AVISO DE SPOILERS: Esse texto contém spoiler de: O Vampiro Lestat, A Rainha dos Condenados, O Vampiro Armand e Sangue e Ouro.


Se vocês já leram a primeira parte que foi postada há alguns dias aqui. Fiquem à vontade para ler a continuação...

PARTE II:
OS ANÉIS DE SANGUE E OURO



Eu podia sentir sua presença. Rondando os cômodos, pisando de modo que eu pudesse ouvir, sussurrando meu nome como se me preparasse para vê-lo. Até então, já fazia seis meses que havia iniciado o meu declínio. Subitamente, tive “a ideia” de ver o sol. Sabia que essa ideia vinha daqueles pensamentos repentinos, mas havia em minhas lembranças a memória vaga de ter sonhado com o sol. Permita-me dizer que não tenho muita certeza acerca disso. Não sei se realmente aconteceu, se não passou de um sonho ou se realmente foi uma ideia inexplicável. Naqueles tempos eu não tinha certeza de nada que não fosse as pinturas cobrindo a tela branca.

Foi algo sutil, quase ridículo. Durante o sono que vinha com o amanhecer, sonhei que vivia em completa escuridão – o que, àquela altura, não era apenas sonho -, e um feixe de luz forte em meus olhos me afastava do vazio gelado que se apossava do meu coração. Não sabia de onde vinha aquela luz, onde ela havia se escondido durante todo aquele tempo em que as sombras foram minha única companhia. Meus dedos pareciam quebradiços e se arrastavam até que eu sentisse a porta de madeira sob eles. Afastei-a lentamente, protegendo meu rosto da luz com o braço livre. Imediatamente todo o cômodo foi invadido pela claridade violenta, que encheu meu coração daquela velha felicidade. Sentia meu corpo pesado como se tal sentimento fosse palpável. Desse modo, acordei quase sorrindo, apesar de levemente zonza. O fato é que com meu despertar, veio também uma leve consciência de minha situação deplorável. Há quanto tempo não fazia uma refeição decente? Ou me dava ao luxo de vestir roupas mais apresentáveis que aquela velha camiseta longa e as calças largas e desleixadas? O sonho havia aberto meus olhos. Sendo assim, abri todas as janelas, passei a escrever sobre a claridade divina que me despertara. As divagações com a luz influenciaram até mesmo meus quadros, que não eram mais um retrato noturno, obscuro, mas faces iluminadas e graciosas que quase sorriam. Era um sinal claro de que o vampiro estava por perto.

Não sei dizer exatamente quando tempo se passou. Talvez fosse novembro, ou dezembro. Não faz diferença. Mas posso me lembrar perfeitamente de uma última noite. Não pintei, mas escrevi algo em forma de poesia e assim que amanheceu, adormeci sobre os cadernos. Ao acordar, sonolenta, avistei um homem alto, louro e elegante sentado no sofá. Em um primeiro momento, achei que não passasse de divagação minha. Ele tinha em mãos o meu primeiro quadro de Amadeo, e seu olhar era admirado. Ele acariciava a tela, e fingiu surpresa quando percebeu minha cômica expressão de dúvida ao vê-lo, e saber quem ele era. Não me demorei muito o contemplando.. Era Marius. Marius de Romanus, o vampiro que eu havia conhecido nos livros, que tinha tantas afinidades comigo que até eu mesma desconhecia.

Bastou olhá-lo dentro dos olhos azuis claríssimos para que eu tivesse a certeza que me faltava. Não saberia explicá-la naquele momento, mas aquilo significava um pedido de desculpas, quase. Significava que ele, ele e somente ele era a causa de tudo. Não havia perigo. Aquela angústia não voltaria, não ainda.

— Marius de Romanus... Por pouco não chegaria atrasado — lembro-me de ter dito, irônica e amargamente. Talvez por rancor ao que fizera com Armand. Talvez porque realmente sentia que ele viria salvar-me de algum modo, ou então porque, no fundo, desconfiava que ele tivesse sido a causa de tudo.

— Como já havia percebido, mas agora posso confirmar... Alma de Lioncourt, mas coração de Romanus — disse ele, num suspiro, quase como se lamentasse, embora não houvesse decepção em sua voz.

Marius aproximou-se, seu olhar era terno. E foi nisso que transformei você, disse silenciosamente. Puxou minha mão com delicadeza até o espelho e mostrou-me a situação em que eu me encontrava. As olheiras fundas, a pele pálida, tão frágil que um sopro me derrubaria sem dificuldades.

— Deveria ter me deixado morrer — resmunguei, com certo desprezo por mim mesma, ainda que fosse mais birra do que o sentimento propriamente dito — Você tem como me curar outra vez, devolver o que me pertence ou me recompensar de um modo único, não tem? — perguntei com delicadeza. Ele franziu o cenho.

— Posso lhe dar a morte agora, mas você sabe muito bem que não é isso o que deseja — seu tom era severo, mas sabia que não havia qualquer resquício de raiva em sua voz. Como se não ligasse bem para o que Marius dizia, passei a observar sua mão, que ainda segurava a minha como se tivesse se esquecido de soltá-la. Analisei os dedos brancos, longos, as unhas de vampiro e os anéis que a cobriam — Ainda temos algumas horas antes do amanhecer, largue os pincéis, tenho algo para você.

— Antes eu preciso que você me diga, Marius — como era prazeroso pronunciar seu nome, com a certeza de que ele o ouvia. Mal podia perceber, mas aquele velho desprezo começava a ser questionado. Àquela altura ainda não havia tido tempo suficiente para me dar conta de que o mistério tinha sido revelado, de que estava diante de um vampiro que havia lido, sonhado e conversado por meses sem saber. Era ele, era real.

— Dizer o que, minha cara? — disse Marius, com a voz mansa de sempre, a expressão suavizada transparecendo calma, embora pudesse sentir a sua solidão e tristeza com tanta certeza quanto ele poderia sentir a minha.

(...)


Última edição por Danni de Lioncourt em 1/15/2013, 8:26 pm, editado 1 vez(es)
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Danni de Lioncourt
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MensagemAssunto: Re: Os Anéis de Sangue e Ouro — PARTE II   1/15/2013, 8:23 pm

(...)



— Por que demorou tanto para vir? Por que veio agora? — perguntei a ele, como se realmente fosse necessária alguma resposta em voz alta. Eu tinha essa certeza dentro de mim. Ainda assim, ouvi sua voz baixa, controlada, e ao mesmo tempo séria e severa.

— Não foi exatamente isso o que pedia, silenciosamente, todas as noites em que lia os relatos do vampiro Lestat? O medo da loucura e o comodismo da incredulidade levou-a à certeza de que nunca atenderíamos tais pedidos, não é mesmo? Ainda que esses pedidos viessem de mortais tão jovens e tão assombrosamente semelhantes a nós mesmos — ele interrompeu a si mesmo, de modo que me levou até a sala, acomodando-se no sofá e indicando que eu fizesse o mesmo. Marius havia deixado o quadro de pé, sobre a mesinha colada à parede.

O garoto da pintura encarava-me com um olhar diabólico, um meio sorriso enigmático que era quase ameaçador. Como se nós dois despertássemos daquele delírio, o mestre Romanus voltou a falar

— Eu jamais a procuraria se sua condição humana não estivesse ameaçada, se eu não tivesse caído na loucura de adentrar sua mente e afastá-la da própria vida. Você bem sabe o erro que cometi e ainda cometo — ainda que seu tom indicasse arrependimento, sabia que seu interior estava dominado por um vazio. Um abismo indescritível. Era como abrir as feridas e as expor para si próprio, de um modo que evitou por anos, por séculos e sabe que não se atreveria a negar — Também sei que é capaz de compreender que minha visita não será duradoura, mas antes, venha comigo. E, por favor, não diga mais nada.

A tonalidade sua voz parecia conter um pedido de desculpas implícito em cada sílaba. Isso seria demais para seu próprio orgulho, mas o arrependimento era visível. Senti também que meu desprezo por ele havia sumido completamente e que a confirmação de sua partida breve me era terrível.

Marius levantou-se, sua longa capa vermelha arrastou-se pelo chão da sala. Só consigo me lembrar dele ter me oferecido a mão branca e sobrenatural. Através do Dom da Nuvem, atravessamos o bairro. Antes que chegássemos aonde ele queria me levar, ele provocou um corte em seu pescoço, oferecendo-me o Sangue.

Vi os jardins. Tão perfumados e belíssimos quanto nas descrições. À medida que seu poderoso sangue milenar misturava-se ao meu sangue humano, avançava por entre as flores, admirava o céu tão azul e macio quanto os daqueles olhos que se abriram no momento em que a cicatriz fechou-se e o torpor fora interrompido. Estávamos sobre um telhado. Nunca havia pisado ali. A casa em si me era desconhecida, assim como a rua, mas não parecia tão longe de onde costumava andar. Sem um ruído sequer, Marius ergueu a janela e indicou que eu adentrasse o local. Era um quarto decorado. Pude sentir o perfume de quem ali dormia. Em passos lentos e inaudíveis, aproximei-me do rapaz sonolento e quando enxerguei seu rosto, meu coração se encheu de dor! Eu o visitei durante esse tempo todo, acompanhei seu sono, seus sonhos e fiz com que sentisse que você o procurava.

Como era possível? Era ele, o meu garoto.

A semelhança com Amadeo era leve, porém perceptível. Bastava apreciar sua inexpressão, o modo como seus lábios, seus olhos pareciam saídos de uma pintura! Temendo que o acordasse aproximava minha mão de seu rosto, movendo os dedos delicadamente no ar como se pudesse sentir a textura macia de sua pele. Aquela expressão serena me destruía. Depois de tanto tempo. Olhei para Marius, que ainda esperava do lado de fora. Perguntava-me como ele tinha tido a coragem de me levar ali, mas não obtive qualquer resposta. O Mestre Romanus, por fim, adentrou o cômodo e com delicadeza arrancou um de seus anéis de ouro e prata, colocando em minhas mãos. A pedra central daquele anel era, na verdade, uma espécie de vidro contendo o sangue do vampiro milenar. Com um único gesto entendi que deveria acomodá-lo entre as mãos do meu garoto. Ainda que ele estivesse sob encantamento, foi com cautela que descobri suas mãos e ombros, acariciando-lhe a face branca e deixando entre seus dedos perfeitos aquela preciosidade.

Seus sonhos o guiarão pelo caminho que deverá seguir, não precisa ter medo. Basta que deixe a joia consigo e ele saberá o que fazer.


(...)
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MensagemAssunto: Re: Os Anéis de Sangue e Ouro — PARTE II   1/15/2013, 8:26 pm

(...)


Faltando pouco para o amanhecer, deixamos o menino. Antes que eu saltasse da janela para o telhado, olhei para trás. Soube que deixava ali uma parte de mim, e naquele instante, flagrei os olhos abertos dele. Sua expressão era de angústia, ele comprimia os lábios como se segurasse as lágrimas de raiva ou de dor. Assoprei um beijo, e suas pálpebras se fecharam, não sem que antes eu pudesse perceber um brilho maligno em seu olhar. Vi que segurava o anel com força enquanto virava-se para o outro lado da cama.

Eu não tinha palavras para explicar o que sentia. Saí do quarto. Marius fechou a janela e partimos em seguida.
— Não aconselharia que voltasse a falar com ele, não por iniciativa sua — disse Marius — Ele já era bastante atormentado com sua imagem e até mesmo o seu nome. Tinha pesadelos todas as noites em que seu rosto e as suas palavras cruéis e egoístas interrompiam suas paisagens e fantasias, relembrando as dores mais profundas que sentiu.
— Agora já ultrapassou o limite de sua perturbação mensal, eu diria — completei, com certo humor. Marius limitou-se a um sorriso leve.
— Ainda estarei aqui, amanhã, quando acordar. E também depois. Mas minha partida será breve. Seus amigos estudiosos sentem minha presença.
Suspirei. A Ilha da Noite.
— Você os impediu de vir?
— De certo modo, sim.
— Seria interessante se eles pudessem conhecê-lo, Marius.
— Isso já aconteceu, uma vez. Faz muitos anos. Mas é suficiente. Além disso, essa Ordem conhece a nós, bebedores de sangue, muito bem, e eles precisam de você.

Concordei. Embora não tivesse noção do que falávamos, mais. Aquela visita tinha mexido nas estruturas do meu ser. Como se desmontasse minha alma e as minhas memórias, tornando-me parte daquela bagunça que eu sempre fora. Sentia-me feito um demônio, contemplando uma das vidas que perturbara por tempos. Ele é apenas um garoto.

Antes que os primeiros raios de sol saíssem, eu já dormia. Um sono tão profundo que nem me permitira sonhar, ou pelo menos lembrar-me dos sonhos quando, ao adormecer da luz, fui acordada pelo mestre Romanus. A noite estava bastante quente e agitada. Havia um constante clima de festas nos fins de semana de onde vivo. Marius não precisou esconder-se. Trajava algo mais contemporâneo, mas clássico e refinado o suficiente para atrair olhares curiosos de “O que uma criatura dessas está fazendo aqui?”. Fomos ao centro, visitamos uma cafeteria esplêndida e depois consegui arrastá-lo para uma livraria. Marius olhava com desgosto para os livros dos primeiros estandes.

— Os vampiros atuais não lhe agradam? — provoquei, virando-me de imediato para uma prateleira, a fim de fugir do seu olhar de censura — Ora, veja isso! Anne Rice.
— Não sou apreciador desse tipo de literatura.
— Não, venha! Este eu ainda não li. O nome parece atraente... Sangue e Ouro. Foi ideia sua?
— Não começa — cortou ele, puxando-me pela mão e me arrastando até a área de filosofia.
— Mas como que saberei a história? Digo, a sua história? — retruquei, com um sorriso ansioso de uma criança que anseia por promessas.


(...)
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MensagemAssunto: Re: Os Anéis de Sangue e Ouro — PARTE II   1/15/2013, 8:28 pm

(...)


Como o bom mestre que era, Marius ponderou sobre o assunto. Seu olhar percorreu uma a uma das prateleiras e ainda deu mais algumas voltas antes que conseguisse dele a resposta que desejava. Por fim, quando encerramos nosso passeio e o vampiro trouxe-me de volta para casa, decidiu contar-me sua origem. Ouvi de seus próprios lábios as descrições do Império Romano, pude enxergar as paredes decoradas de seu palazzo. Até pouquíssimos minutos antes do alvorecer, Marius detalhou passo a passo de sua existência, com uma precisão admirável e uma paciência inesgotável. De certa forma, parecia apreciar minha companhia mortal e curiosa.

Na noite seguinte, ele retornou do mesmo modo, dando continuidade às suas histórias, perdendo-se também em contos curiosos sobre sua existência mortal, suas belíssimas mulheres e algumas visitas a Armand quando este fazia parte do grotesco Teatro dos Vampiros.

Quão nostálgico me é recordar sua voz, sua fala paciente e tão convincente. Quão terrível é me dar conta de que conforme as horas se passavam, eu o perdia. É óbvio que eu pedi o Sangue, que confessei que minha existência estava condenada pelos meus próprios erros e que eu não seria capaz de viver normalmente depois desses últimos e conturbados meses. O sol ameaçava seus primeiros raios, quando segurei sua mão de mármore como se pudesse prendê-lo a mim. Como se houvesse alguma palavra capaz de fazê-lo ficar.

— Entenderá algum dia — suspirou ele.
Eu receio que não...
— É uma despedida... definitiva? — hesitei.

— Mas o que é, nesses tempos atuais, verdadeiramente definitivo? — respondeu misterioso, deixando a questão no ar. Não pude vê-lo ir embora, desapareceu tão de repente que, quando me dei conta, já era noite outra vez.

Havia uma nova atmosfera naquela casa. Não mais o lar sombrio e melancólico de antes. As janelas estavam abertas e creio nunca ter ficado tão contente por acordar. De certo modo, eu sabia que não estava preparada para o Sangue. Ansiava pelos dias ensolarados e pelo que a vida esperava de mim. Antes de sair da cama, percebi que havia em um de meus dedos um anel belíssimo, nos mesmos moldes do que havia deixado para meu doce anjo há algumas noites, um anel de sangue e ouro. Além disso, eu segurava um embrulho bonito. Ao retirar o papel barulhento, pude ver a capa de uma edição belíssima daquele livro que tinha visto na livraria a biografia do vampiro romano. Cujo bilhete em seu interior era bastante claro:

“Por isso e por mais outras coisas mais.
Cuidado com a ilusão que os livros lhe provocam. Pois nós também observamos, e estamos sempre, sempre presentes, minha cara.
Marius de Romanus”

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MensagemAssunto: Re: Os Anéis de Sangue e Ouro — PARTE II   1/15/2013, 8:31 pm

PARTE III:
DE VOLTA À VIDA, OU QUASE ISSO


Não pude mais sentir sua presença. Creio que desde que a ideia de tê-lo perdido passou a atormentar-me, comecei a cogitar a possibilidade de escrever a respeito. Não vi e creio que também não mais o verei. Mas, como ele próprio chegou a me dizer, o que nesses tempos pode ser chamado de definitivo, não é mesmo?

Quando justo eu conseguiria ocultar tais segredos? Minha consciência está livre de crises de arrependimento e de culpa. Seu belíssimo anel de ouro e prata ainda brilha em minhas mãos, sua voz ainda é relembrada, todos os dias, antes de meu sono. Ainda que a vontade imensa de relatar esses acontecimentos inusitados estivesse o tempo inteiro comigo, por um momento ainda tive a esperança de que Marius aparecesse outra vez, ou decidisse me levar para longe dessa vida mortal e finita. Tentei retornar lentamente, voltar a ver, um a um, meus companheiros d’A Ilha da Noite; convencê-los de que meu sumiço se dera apenas pela indisposição de ler os livros que tanto amei – e eles, não sei como, pareceram cair nessa tão fácil! Sutilmente, atribui ao meu retorno o livro e à história de Marius, de modo que ocultei por um bom tempo que foi ele próprio a causa do sumiço e também do retorno.

Mas, de certo modo, sinto que esse caso ainda não pode ser dado como encerrado. Já faz uns dias desde que venho sentindo uma estranha e ao mesmo tempo familiar presença. Tenho absoluta certeza de que não se trata de nenhum bebedor de sangue que eu já tenha lido a respeito.

Ele permitiu que eu o visse uma ou duas vezes. Lembro-me que na última vez em que se fez visível, seguia-me na volta para casa. Usava chapéu e luvas, parou na esquina e encostou-se em um poste de luz. De longe percebi seu olhar fixo e brilhante, mas não pude reconhecê-lo como gostaria. Contenta-me o fato de ter percebido em seus dedos enluvados, um belíssimo anel, cuja pedra vermelha do centro chamava atenção.

Tentei me aproximar, mas aquilo não parecia ser um encontro, mas um aviso. A cada passo que eu avançava, ele recuava. Antes que partisse, permitiu-me um sorriso diabólico, e então eu soube.

Era ele, meu garoto... Vampiro.


Marius.
Marius, seu cretino!

THE END
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MensagemAssunto: Re: Os Anéis de Sangue e Ouro — PARTE II   1/15/2013, 9:31 pm

Linda e envolvente, querida!!!!

Óbvio que exijo uma continuação!!!

(E você nos enganando com essa história que tinha se afastado dos livros da Anne, né?...)

Parabéns elevado a décima potência!!! cheers

_________________
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Gabrielle de Lioncourt
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MensagemAssunto: Re: Os Anéis de Sangue e Ouro — PARTE II   1/16/2013, 4:34 pm

Adorei, Danni!

Lembro de na primeira parte ter dito que estava bem curiosa com o que estava por vir, e devo admitir que minha curiosidade foi satisfeita com sucesso, você não decepcionou! Very Happy

Adorei os diálogos com o Marius, as descrições de sentimentos e situações... gostosa, e como o Jajá disse, muito envolvente!

Adorei menina, continue escrevendo *.*

_________________
“E assim, estendemos a mão para o caos furioso, apanhamos alguma coisa pequena e brilhante e nos agarramos a ela, dizendo para nós mesmos que ela tem significado, que o mundo é bom, que não somos a encarnação do mal e que no fim iremos pra casa.”

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"Estaria sempre dividido. Sempre haveria a dor. Dor e prazer interligando-se e moldando-o, mas um, na verdade, jamais se sobrepondo ao outro; nunca haveria paz."



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Danni de Lioncourt
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MensagemAssunto: Re: Os Anéis de Sangue e Ouro — PARTE II   1/16/2013, 9:05 pm

Jaja:

Quem sabe não surge alguma ideia de continuar a história, hein? Fiz o máximo para deixar essa questão em aberto no final, de modo que até possa pensar em outros contos, a partir desse. E, pois é, até tentei enganá-los, poupar relatos... comprometedores, mas... HAHAHAHA

Gabs:

Esse era meu maior temor: que a segunda parte não alcançasse as expectativas criadas pela primeira. Fico realmente contente por saber que gostou, mesmo! Foi feita com muito carinho ~e sangue~.

Obrigada pelo apoio de vocês! *-*
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MensagemAssunto: Re: Os Anéis de Sangue e Ouro — PARTE II   

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