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 Entrevista da Mestra na "Revista da Cultura"

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Jaja de Lioncourt
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MensagemAssunto: Entrevista da Mestra na "Revista da Cultura"   9/18/2011, 8:23 am

Excelente e imperdível:

Por Guto Barra,

Muito antes das séries Crepúsculo e True Blood, Anne Rice elevou o universo dos vampiros da seção de “pulp fiction classe B” para o mainstream da cultura pop. Como uma das mais ativas e lidas escritoras do mundo, ela já lançou cerca de 30 livros, ultrapassando a marca de 100 milhões de cópias vendidas. Além de romances baseados em mitologias ou no mundo sobrenatural, Rice também escreveu sobre a infância de Jesus Cristo e até novelas eróticas (sob diferentes pseudônimos).



A história de sucesso da autora americana, nascida em Nova Orleans em 1941, começou em 1976 com Entrevista com o vampiro, obra que duas décadas depois foi sucesso nos cinemas com Tom Cruise como protagonista e despertou tanta atenção quanto revelou detalhes intrigantes da trajetória pessoal da autora. Por muitos anos, Rice cultivou uma aura misteriosa de personagem reclusa morando em uma mansão em Nova Orleans (a residência, aliás, serviu de cenário para sua série de livros A hora das bruxas). Depois da morte do marido [o poeta e pintor Stan Rice], em 2002, mudou-se para a Califórnia e tornou-se uma cristã devota, decretando que iria usar seu talento “para Jesus Cristo”. Alguns anos depois, no entanto, declarou publicamente não querer mais nenhuma ligação com “religiões organizadas” e passou a criticar principalmente a Igreja Católica.



Ativa nas redes sociais, a autora também de obras como Pandora, O vampiro Armand e Tempo dos anjos chega agora, aos 70 anos, como uma espécie de ativista pelos direitos gays e inicia uma nova série de livros sobre lobisomens. Convidada especial da 15ª Bienal do Livro do Rio de Janeiro (participa de um encontro literário no dia 7), ela aproveita para lançar oficialmente De amor e maldade, segundo título de sua série As canções do Serafim. Mas foi algumas semanas antes de embarcar para o Brasil e enquanto finalizava o livro The Wolf Gift, que Anne Rice concedeu esta entrevista exclusiva de sua casa na costa da Califórnia.


Você escreve profissionalmente há mais de três décadas. Como seu processo criativo foi mudando ao longo dos anos? Percebi um refinamento do processo criativo... Continuo sendo uma escritora que se baseia em instinto, mas, à medida que fui ficando mais experiente, fui aprendendo a controlar um projeto com mais precisão. Mas o processo é basicamente o mesmo, você ainda se sente frustrado algumas vezes – e isso é algo necessário. A ideia é que tudo seja fresco, que tenha aquela série de “acidentes”. Assim que termino um livro, em geral gosto de ir para outro universo. No momento, estou dando um tempo na minha série sobre anjos para escrever um livro sobre lobisomens. Criei todo um universo novo, que tem a ver com cosmologia, história e lenda dos lobisomens. Mas já estou ficando com vontade de voltar para o mundo dos anjos.



Quando trocou Nova Orleans pela Califórnia, sentiu alguma mudança na maneira como o ambiente influencia seu trabalho? Sim! Preciso de certa dose de sol todos os dias, preciso de calor e ver um pouco de grama, flores e árvores ao meu redor. Posso escrever sob quaisquer circunstâncias, mas rendo mais se tiver contato com essas coisas. Os pontos altos da minha criatividade sempre ocorreram em ambientes em que poderia tirar os olhos do computador e ver algo bonito, como uma árvore, o céu, o mar, a costa da Califórnia. Preciso de longos períodos de paz e silêncio, concentração, nunca fui uma pessoa de conseguir escrever no meio de um café.



Mas você ainda tem conexão com Nova Orleans? Não sei se algum dia voltarei a morar lá, mas a cidade é uma parte tão grande de minha vida que estará sempre em meu coração. Passei tantos momentos maravilhosos por lá que não quero deparar com algo que vá ser menos memorável...



Como as histórias chegam até você? Histórias vêm muito facilmente para mim, há um mecanismo na minha mente que cria tramas e desdobramentos sem que eu possa ter o menor controle. O desafio criativo é conseguir desenvolver essas histórias. Um bom livro é mais do que uma série de rápidas impressões ou um momento excitante com uma figura em sua mente; é enxergar um universo inteiro nascendo em sua cabeça, recheado de personagens que você sente que conhece, nos quais consegue definir o passado, a história principal e tudo o mais. Não ganhei o talento para música, dança ou atuação, mas tenho este. É uma coisa maravilhosa.



O que você gosta de ler? Geralmente leio trabalhos de escritores mais antigos. Acabo de ler Best Ghost Stories, de Algernon Blackwood, que são histórias do início do século 20. Não consigo acompanhar a literatura contemporânea, ela não satisfaz necessariamente à minha sede... Mas leio os livros do Stephen King, por exemplo, e aprendo muito com ele! Leio também Norman Mailer e outros. Mas não leio muito e também não sou muito rápida na leitura.



Seus livros são sempre cheios de referências históricas. Como é seu processo de pesquisa? Faço pesquisa constantemente como um hobby. Se não tenho nada para fazer num sábado à noite, pesquiso um livro sobre Egito antigo. Tenho uma biblioteca que inclui livros de muitas épocas e de países diferentes: história judaica, da Itália, da Renascença, do Oriente Médio... Não paro nunca, adoro história e ela acaba sendo incorporada em tudo o que escrevo.



O que impulsionou a decisão de tornar pública a sua saída da Igreja Católica? Quanto mais estudava, rezava e seguia a fundo o cristianismo, mais eu descobria que não acreditava na teologia cristã convencional. Não achava convincente. Poderia ter deixado isso de lado e passado a viver a minha fé em Deus de maneira particular, como muitas pessoas fazem. Mas o que me fez tornar pública a minha posição foram coisas que as igrejas estavam fazendo nos Estados Unidos e que considero imoral e de má índole: a perseguição aos gays, às mulheres, à família; a tentativa de controlar direitos de reprodução. Não poderia continuar sendo uma “sócia deste clube”. Senti a necessidade de dizer: “Isso deve ser repudiado publicamente”. É uma obrigação moral ter uma postura contra religiões que se tornaram imorais. Tenho um senso forte do que é errado e acredito que todas as pessoas possuem este mesmo senso. E temos que discutir este assunto com pessoas que respeitamos e as pessoas precisam entender quando há consenso em relação a alguma coisa. Os Estados Unidos já chegaram a um consenso sobre direitos das mulheres e dos gays e as igrejas não estão respeitando isso! É trágico que a fé em Deus tenha que estar associada a toda uma gama de posições convencionais que não têm nada a ver com Deus! É a grande tragédia da religião.



Você é otimista em relação à aprovação do casamento gay na maior parte dos Estados Unidos? Com certeza vamos ver esta mudança logo. A recente aprovação do casamento gay no estado de Nova York foi maravilhosa! Os americanos já chegaram à conclusão de que isto é uma questão de direitos civis. Eles não vão mais dar ouvidos às desculpas de fanáticos religiosos. As pessoas já estão se perguntando: “Por que estamos gastando dinheiro público para perseguir pessoas que querem se casar?”



Você é bem ativa nas redes sociais. Do que mais gosta em relação a elas? Dividir ideias é fascinante. Adoro ir ao Facebook e postar perguntas, links de notícias que estou lendo, dividir uma convicção que tenho e ouvir o feedback dos outros... Quando meus leitores entram em uma discussão séria sobre algum tópico, eles me dão grandes insights. Adoro também dividir meus pensamentos – era frustrante tomar café da manhã lendo o jornal e só poder reclamar para mim mesma! No Facebook, quem não está interessado no que você postou segue seu caminho e outros querem conversar. Adoro! Tenho quase 200 mil fãs no momento. Meu trabalho é uma obsessão mais forte do que qualquer coisa... A única época em que fico obcecada com as redes sociais é quando não estou escrevendo. Quando estou fazendo progresso com a escrita, não tenho este problema.



Mas sente uma responsabilidade maior ao escrever no Twitter ou Facebook? Não vejo uma responsabilidade maior, acho que você tem de ser honesto quando fala. Mentiras têm consequências, em todos os níveis. Há coisas que não precisam ser ditas ou que talvez não devessem ser ditas. Quanto mais velho você fica, mais aprende sobre isso. Se não gosto de um jovem escritor ou acho que um filme é ruim, não tenho que me manifestar sobre aquilo. Não vale a pena esculhambar o trabalho de outro artista ou profissional. Mas, se perguntam algo sério, sobre religião e coisas do gênero, aí acho válido e tenho prazer em responder. Acho que os problemas acontecem com pessoas que não sabem o que pensar e ficam falando o tempo todo para tentar descobrir.



Como acha que a tecnologia dos eBooks está transformando a indústria? Acho que as pessoas adoram ler e sempre vão continuar gostando. Anos atrás, as pessoas decretaram o fim da leitura por conta de TV, cinema e rádio. Agora seria uma bobagem tentar prever algo parecido, todos sabem. Os livros eletrônicos são a confirmação de que as pessoas adoram ler e carregar seus Kindles e Nooks [aparelhos específicos para a leitura de eBooks] no ônibus, no trem etc. A mídia digital é uma grande expansão do livro tradicional. Tudo volta ao livro: não importa se foi escrito à mão em um papiro ou impresso em papel e encadernado. O que importa é aquele pacote de ideias, sejam elas de ficção ou não. Os eBooks também confirmam que as pessoas têm urgência não só de ler, mas também de escrever. Hoje em dia, os jovens não param de mandar emails e mensagens de texto, isso é uma forma de se expressar por meio da escrita. As pessoas hoje estão provavelmente aprendendo mais a escrever do que há 20 anos. E muitas vezes não conseguimos ver uma revolução quando ela está acontecendo...



Vivemos hoje uma obsessão por vampiros na cultura pop. Como vê isso? Acho divertido e fico feliz com o fato de que escrevi 12 livros sobre o assunto, botei para fora tudo o que tinha sobre o tema... Se eu tive uma importância, fico satisfeita. Não tenho vontade de voltar àqueles personagens; então, me sinto livre para apreciar tudo o que está acontecendo hoje, incluindo as novas maneiras como os escritores estão abordando os vampiros. Estou entrando em outro universo, com novas cosmologias, novos super-heróis e personagens imortais e estou gostando disso. Acho maravilhoso que as pessoas atualmente apoiem tanto a literatura fantástica. Sempre houve aficionados, que se encontravam em pequenas livrarias de ficção científica, mas hoje tudo isso é o mainstream. Hoje, há uma gama de gêneros, do poético ao erótico, passando pelo feminino, como Crepúsculo, ou pelo másculo, como a Guerra dos tronos. Sinto certo reconhecimento, porque, quando comecei a escrever aqueles livros, achavam que era louca: “Por que escrever sobre vampiros?” A noção geral era de que não havia nada interessante em relação a eles. É engraçado ver esta mudança 40 anos depois.



O que pode nos dizer sobre The Wolf Gift? É um romance longo, acabei de terminar e ainda não sei quando será publicado. Estou no momento fazendo a revisão. É sobre Reuben, um repórter de 23 anos, de São Francisco, que é mordido por um lobisomem. Ele então começa o processo de entender que está se transformando em algo diferente e tem que descobrir o que isso significa. Como todos os meus heróis, ele é um cara bacana e interessante. A história se passa hoje em dia e traz vários elementos de São Francisco, onde morei por muitos anos. Me diverti muito escrevendo este livro! Adoro ter um novo terreno espiritual, emocional e físico para os meus personagens.



E quanto ao proposto terceiro livro da série Cristo Senhor? Abandonei esta ideia. Comecei a achar que, se tentasse escrever um terceiro livro naquela série, acabaria diminuindo os dois primeiros. Acho que a história parou exatamente onde devia, antes de ele começar a pregar. Acho que acabaria entrando no debate cristão, que já dura dois mil anos, sobre as coisas que Jesus disse, ensinou etc. Acho que os livros foram bem aceitos por cristãos e não cristãos e fui bem fiel aos documentos da Bíblia, e gostaria que isso ficasse onde está: dois volumes que são uma meditação sobre a encarnação de Cristo.



Você lança no Rio de Janeiro o livro De amor e maldade. Como é sua relação com o país? Estive no Brasil nos anos 1990, fiquei em Copacabana e depois fui a Manaus e Salvador, foi incrível. Escrevi sobre isso no meu livro Violino. Minha heroína vai para a Bahia e se diverte muito. Tenho muitos fãs brasileiros, que se comunicam comigo no Facebook!



Link da entrevista: http://www.revistadacultura.com.br:8090/revista/rc50/index2.asp?page=entrevista

_________________
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Última edição por Jaja de Lioncourt em 9/19/2011, 8:17 pm, editado 1 vez(es)
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Nanda
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MensagemAssunto: Re: Entrevista da Mestra na "Revista da Cultura"   9/18/2011, 12:52 pm

[...] Tenho muitos fãs brasileiros, que se comunicam comigo no Facebook!

Ô se tem,rs.
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Malkav
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MensagemAssunto: Re: Entrevista da Mestra na "Revista da Cultura"   9/19/2011, 11:59 am

=

Já posso ler Cristo HUAUHAHUAHUAHUAHUAHUA \o
MUITO boa a entrevista... recheada de informação e com perguntas bem pertinentes
gostei gostei ... só falto perguntar sobre o livro de Atlântida ner
Mas se num tem previsão pra Wolf Gift ... provavelmente o outro tbm num tem
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Lafayette
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MensagemAssunto: Re: Entrevista da Mestra na "Revista da Cultura"   9/19/2011, 6:30 pm

ótima a entrevista o/
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MensagemAssunto: Re: Entrevista da Mestra na "Revista da Cultura"   9/24/2011, 7:38 pm

Que legal.

Duas semanas fora e tem muita coisa nova na ilha.
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Danni de Lioncourt
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MensagemAssunto: Re: Entrevista da Mestra na "Revista da Cultura"   10/2/2011, 3:01 pm

Como assim só fui ler a entrevista agora? Gostei muito, as perguntas foram ótimas, principalmente sobre as leituras dela, além dos novos livros, haha. Smile
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MensagemAssunto: Re: Entrevista da Mestra na "Revista da Cultura"   10/3/2011, 1:06 pm

Que querida!
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stefano666



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MensagemAssunto: Re: Entrevista da Mestra na "Revista da Cultura"   10/9/2012, 4:23 am

perguntei pra Mestra se ela gostava de filme sobre o lado medieval e guerreiro de Vlad Tepes. Ela disse que não, achava o nobre muito sádico e cruel.
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MensagemAssunto: Re: Entrevista da Mestra na "Revista da Cultura"   

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