A Ilha da Noite

Para aqueles que amam o maravilhoso mundo criado pela Mestra inigualável Anne Rice. Lestat, Louis, Armand, Marius, Mayfairs, A Talamasca... Todos estão aqui.
 
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 Letras de Sal

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Ariel Castaneda
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MensagemAssunto: Letras de Sal   7/4/2010, 2:12 pm

Meus amigos, vocês já ouviram falar de romance de tese? É quando alguém tem uma ideia e acredita que exemplos podem explicitá-la melhor num enredo que se faz exemplo. Foi moda na época do Naturalismo. O mais famoso - quase todos vocês já devem ter ouvido falar a respeito - é O cortiço, de Aluísio Azevedo, uma obra impecável.

Quando eu estudava sócio-linguística, foi proposto à turma um trabalho sobre a comunhão entre a linguagem e a essência do ser humano. O que que um estudante de Letras faz numa hora dessas? Corre pro mestre Guimarães Rosa - se o trabalho fica horrível, pelo menos a referência é respeitabilíssima. A escolha de textos de sua autoria foi quase unânime.

Eu não tenho amor-próprio nem orgulho. Sempre que me dão algo chato pra fazer, dou um jeito de complicar, é irracional, eu gosto do martírio mesmo. Todos já concluíram, certo?, isso mesmo, criei o meu romance de tese. Ok, não tem a extensão de romance, mas é um romance, ok, não criei na hora, era uma historinha com a qual eu brincava desde a adolescência e deturpei para meus fins acadêmicos. Ok, o professor não aceitou, porque segundo suas palavras é muito fácil inventar dados para sustentar teoria própria.

Mas estou de férias e revisitei minhas gavetas, e como vi algumas pessoas deixando textos aqui, resolvi dar uma publicada, vai que o professor era um romancista mal compreendido que teve seu recalque agravado pela minha brincadeira e vocês sejam mais legais e cheguem a olhar com simpatia para ela, né?
Enjoy.



O que veio escrito nos jornais, debaixo de manchete em negrito, não ia nem um pouco além do que se pode esperar de pessoas de razão. Conseguiram, obviamente, resumir tudo a fatos encadeados e uma conclusão árida. Alguns comentários de desaprovação foram admitidos - um verdadeiro milagre se considerarmos sua prosa comercialmente adequada -, entretanto, as fotos que escolheram para publicar ao lado deram conta de desculpar tais desvios.

Não é de impressionar que profissionais tão acostumados à tinta e papel de celulose demorassem um pouco mais a perceber mensagens gravadas com outro tipo de material e código. Entretanto, eles não quiseram saber das páginas do diário. Admiti-las era correr o risco.

Eu as vi. Verdade, fiquei apavorada com o material de pesadelo, só que como poderia não decifrar uma por uma? Elas eram tão delicadas, logo, logo pereceriam - não me dar ao trabalho as condenaria a nunca terem sido. Traduzi-as, compilei-as, e trago-as aqui. Tudo o que foi o curso das duas crianças.

A história de Elemiah e Alana pode ser definida e indefinida com várias composições, mas nada foi além de um amor exacerbado. Eram irmãos. Não apenas pela geração em comum e pelos mesmos traços, mas irmãos na mesma condição, a capacidade de materializar o nada e revestir-se só de poeira.

Ao meu entender, os dois eram mesmo partíclulas conscientes de pó que se perderam do plano maior pois estavam distraídos, e Ierathel (seu pai, seu irmão, uma alma piedosa ou quem quer que tenha sido) os recolheu. Contudo, Alana não pôde deixar o mar. Achou que se dissiparia sem o sal para guardá-la. Ficou sozinha, fechando-se em conchas, protegendo-se de madrepérola. Ela caminhava no sono e sonhava. Tão leve era que qualquer pesadelo podia dominá-la. Vítima assim, depois de anos sem contato, sugou Elemiah em seu turbilhão tão logo o percebeu de volta.

Ele, acostumado ao raso, muito machucou-se. Ele tinha parado de rezar. Ele que se acreditava único nas montanhas desérticas com suas plantas esturricadas. Ele cansado demais da penitência feia e desejoso de pena úmida. Ele, que acima de qualquer ação coroava escrever. Ele e suas páginas vivas, hipnotizadas pelos signos que recebiam. Senhorzinho, senhorzinho, um senhorzinho do lastro, de vontade pouca, precisando da ordem de Hannia - uma que lhe tapava a falta de - para achar ocasião: abandonaram a casa de vidro e caminharam para leste.
Gostaria mesmo de acreditar que viesse a mim vingar a tradução abusiva, certamente cheia de falhas e intromissões. Mas sou velha, já não me apaixono mais. Resta o breve consolo de relê-la de vez em quando e imaginar que estão aqui, em algum canto não asséptico.





De como Axel, chamando-se Elemiah, encontrou Hannia. (Segundo “páginas” já não tão frescas.)


Olho para as mãos. Esfrego elas nas páginas. Tento sentir o gosto do papel através da pele, chamar o sabor da tinta de finos cristais, branquíssimos, me cortar nele, voltar a realmente crer que é sabor, em vez de só reproduzir um conhecimento que me deram. Façanhas simplórias antes de me tornar matéria. Antes que o choro da criança começasse a atormentar. Castigo atemporal para ser atemporal, e dor orgânica para quem sempre corrompeu a carne – com gosto. Uma obsessão para que o hábito não se desfaça. Enlouqueço, me flagelo, escrevo. Ela reza e me chama. Chama de Elemiah, como eu me chamava, título de subjugado, não de Axel, nome de guardião da Discórdia. Suas lágrimas bagunçam minha visão, seus gritos me confundem as poucas noções, tudo o que podia ser tornado material em mim foi, para receber as manifestações materiais de seu tormento sem luz. Elemiah, Elemiah, Elemiah, a menina rasga nas páginas quando não estou olhando.
Se não abandono este lugar, inventando nova busca, é que só aqui encontro espaço na última iluzão de Hannia, coisa que não se pode desfazer porque ela impregnou cada parede deste casarão e se recusa a abandonar ele mesmo depois de parar. É essa iluzão o que me permite deitar sobre o telhado apreciando noite eterna, com sereno, e admitir tanto a proposta da água fina que abro minha boca para enganar a sede. É essa coisa deixada aqui por Hannia que me faz ouvir a zampona mesmo eu sabendo que não existe quem possa tocá-la, e que faz seus sons mais fortes quando o choro da criança vem trazer minha ração de demência. Um consolo que não me seguiu por longas distâncias. Longe daqui estive a sós com a duração do castigo, então voltei.
Hannia foi a outra parte, uma menina, não “a” menina. Foi parecida com um raio de sol que vazasse minhas iluzões. Comeu as pétalas das flores de nossa estufa, natural, absolutamente separada da organização comum que faz o sentido de vida dos que são. E tinha a voz que prometia feitiço a todo ser que passasse no nosso caminho, perfeita a trazê-los aos montes direto para a estufa, homens, mulheres, jovens, idosos, trôpegos, confundidos pelos milhares (sim, aceito, milhares) de objetos ajuntados de acordo com a personalidade vezeira que é traço nosso. Por causa de eu não ter nomeado perto dela o que sabia, Hannia cresceu no meio deles, se contaminando às vezes com os sensos de obrigação, fazendo eles trazerem presentes, se divertindo com beijos e tombos desnecessários até adormecer de suas histórias e acordar comigo. Sem resto, era isso. Nunca questionava quando se iam. Depois de soprar, discretamente, chamando mais uma vez, retornava às flores. Elas explicavam: esses também não terão parte conosco.
Hannia fora pisoteada, sofria aquele estágio de dor única, todas as partes do corpo unidas numa paixão só. Eu tinha plena certeza de que nossa mania não podia mais vingar nesta parte do lugar, mas tinha bem ali um milagre encarnado, sangue, sujeira, cabelos em forma de massa colada no crânio. Ri, porque ela achava que estava morta mas estimulou todos os já estímulos sensoriais de uma guerrilha para me interessar nos sonhos da sua mente coitada. Não pode estender a mão se já estiver morta. Se esforçou mais, o som de gritos e estilhaços se negou aos meus ouvidos, fiquei anestesiado para as pessoas que, correndo por qualquer tanto de sobrevivência a mais, me transformavam em invisível obstáculo. Como podia ter aparecido se eu esterilizava tudo o que produzisse uma dela? Me ajude. Implorou! Mostrou os olhos como eram de verdade, verde-claros, os cabelos que de verdade soltinhos. Enrolei uma mecha sebosa nos dedos, puxei – há estágios mais adiantados para sofrer, não parará agora. Sua iluzão foi sugada pelos céus, rodando, rodando, lá estávamos no cadinho humano: respirando sangue e fogo. Quis ignorar seus delírios enquanto abria caminho no povo: não morrerei, não posso morrer, eu tenho visões, aquele peso semi-inconsciente de fardo, aqueles sonhos manchando o terror exagerado da turba. Nunca me comovi pelo horror de guerrilha, carne maturada, a tal da desolação e todo o resto que acusam de vir com a Discórdia. Mas subia uma fumaça dos telhados que ganhava cores impossíveis só para comprar meus olhos.
Todas as impressões que tive de Hannia resolveram aparecer em arranjo, como se escrever fosse suficiente para melhorar ela e o que fizemos – vai ficar tudo bonito em tinta de cristal. Esse papel sua quando escrevo, é fato, arfa e sangra um pouquinho enquanto risco, resmunga baixinho depois que passa seu terror inicial de página. Mas nem assim o que era de mesquinho sobrevive à força da palavra riscada. Que seja. Viajávamos. Tinha um lugar para cada e o lugar dos dois, fazíamos o encontro e voltávamos para a estufa. É, isso foi no tempo da estufa. Geralmente não falávamos. Imaginei que ela vinha se comprometendo porque voltava sempre mais limpa e obrigada. Uma vez trouxe matéria comprada, espantou-se dos vidros quebrados, quis maldizer as plantas sem flores, quis conversar.
― Descobri que posso fazer uma coisa. Chamam de sedução, quero que veja.
Padrões absurdos de criaturas passavam por ali para ouvir ela na zampona. Passavam tantos e tantas vozes que me sentia tonto. Uma vez, sumia do corpo. Ela ficava apreendendo o ao-redor, absorvido, todo ele sumia. Nos olhos dela, o mesmo brilho dos meus (único ponto de acordo nosso). Se sorrisse, o vidro refletia mais, se falasse, o vento parava, os grãos de areia adormeciam, as flores regrediam a botões e os viajantes sentiam experiências do sagrado. Esperou muito que eu lhe explicasse. Foi traída pelo sonho, perguntou dormindo por que eu temia a mulher atrás da porta.
De manhã, não se lembraria, é que nunca nos lembramos e foi até por isso que esqueci também. Depois, foi inevitável, quando virou madura (de vez em quando dizia a palavra cumplenhos) obedeceu à Discórdia pela primeira vez. Acordei sem ver o novo ser envelhecido, sabia que estava no hospital dos pobres, pousada nos cabelos da população terminal. Espalhada com ela, pacientemente, minha Maldição mostrava como devia ser feito: diluiu-se enquanto alguns morriam e outros recebiam a conhecida melhora final. Quando consciente de novo, Hannia perguntou quem era a mulher.
_ Que andava ao meu lado no sono, que só sai do canto enquanto durmo. Ela me tem chamado com toda frequência. Sei que o guarda, sempre ali atrás da porta, você traz o gosto dela na saliva. Por que não me diz, Axel, por que não fala sobre todas as outras coisas e sobre ela, que nos diz imortais, que conta histórias, tão linda...?
Talvez “Discórdia” não servisse para Hannia e ela precisasse de encontrar próprios nomes. Eu continuava sempre igual. Ela começou a carecer de motivos, a querer fazer, a mudar toda vez e guardar talentos. De tão crescida passou em amizade com um grupo de peregrinos turistas.
Noites e noites e noites, vi carta com sua grafia. A estufa era em lugar nenhum, nem selo havia no envelope. Simplesmente encontrei, debaixo dos sapatos, e li a mensagem: “Quando os relâmpagos cessarem, seremos juntos no paraíso.”
Um frio insuportável me encostou, nunca chovia nas montanhas. Pingos grossos assustavam o teto de vidro. Onde tinha afofado a terra ainda estava quente, deitei lá, a Discórdia deixada de lado destruía os objetos, cobria minhas costas de picadas, espremia meus ossos. Não levantei, só respirava com mais dor, ela podia fazer o que bem quisesse – nem manifestei quando mais vidros foram quebrados e a água não entrou (vento derrubando tudo de objeto, eu ainda seco). Soltei a carta para que flutuasse pela noite andina.
Veio Ierathel chutar terra em meu rosto. A Discórdia respeitava o irmão, voltou para seu lugar.
Você a chamou tanto que ficou aprisionada atrás de sua porta e agora a despreza? Disse ele com o pensamento, nossa linguagem confortável. Não pode ignorar impunemente um mistério por se habituar a ele.Continuei de testa no chão, cobri o rosto com o antebraço em sinal de respeito. Fechei os olhos, que a terra não entrasse ali. Eu tinha vergonha, cansaço e fraqueza, se não ficasse contido ele veria e acusaria tudo.
Hannia acreditou nela e foi atrás de uma resposta, você deixou sua garota fazer divindade da imagem de um medo!
_ Juízo arbitrário. Hannia foi aonde quis.
Arbitrariedade?! A decisão não é minha. Se quer ser dissociado, seja-o você.
_ Não escolhi! Foi uma maldição lançada sobre mim!
Mas sente-se amparado por essa condição. É sua desculpa e delícia. Ele riu por causa da certeza de minha queda. Me assumi novo como sem-caminho, me sentia pronto, seguro na negação, na assunção do impossível, eu não pertencia, não era.
_Vou para o paraíso! Quando Hannia voltar – desafiei previsões sombrias.
Vai, eu sei. Não se esqueça de que lá é o território dos anjos.
_De tudo que vejo e sei, não podem ser tão especiais. Seres de luz com mensagens de cura e pragas.
Como quiser, Axel. Mas não se esqueça de que rezam, por isso, considere a familiaridade que têm com milagres. Odiei que usou meu nome novo. Disse com dignidade, mas disse, por isso odiei. O que fizesse ali seria acusação, ele me acusou dizendo Axel, e ainda deu conselho. Mordi a língua para insistir contido, eu não perderia!
Tocavam minha testa, cantavam para me fazer esquecer a raiva - voz quase tão linda quanto a de "minha garota", toque quase tão confortável quanto o dela. Só havia uma nota estragada naquela canção e eu sabia qual era, sabia o quanto era irresistível a promessa de descompromisso da imaterialidade. Ela riu quando despertei contrariado, me deu um beijo. Noite fria e sem nuvens.
_Não choveu, não é mesmo?
_Sim, para você - assim Hannia confirmou que era do mistério em definitivo.
_E para você?
_Saudades – me abraçou.
Tempo que deixamos a estufa, fomos para onde não precisássemos mais forjar ilusões de umidade e calor na noite.
Onze vezes batem os sinos da igreja. Os soluços da criança ainda estão amenos.
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MensagemAssunto: Re: Letras de Sal   7/5/2010, 11:49 pm

Ficou Excelente, Ariel.

Escreva e poste mais!!! cheers

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Ariel Castaneda
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MensagemAssunto: Re: Letras de Sal   8/7/2010, 11:34 pm

Já está escrito, postar aqui o restante depende apenas de minha cabeça cheia de vento funcionar e lembrar de salvar no pen drive para que eu possa trazer à casa de mi madresita (que tem internet).
Obrigada pela excelência.
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Ariel Castaneda
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MensagemAssunto: Re: Letras de Sal   4/20/2011, 1:42 pm

Porque quando primavera anoitecia muito lentamente no litoral e nunca fazia frio. Porque as luzes eram incandescentes demais, a atmosfera úmida demais, quase de pegar, tudo o que fosse feito pelo dia choveria no final de tarde. Porque quando assim eu era conforto no calor das sombras, extraía plenas sensações do facho amarelo descendo dos postes, contribuindo antes com aquilo que desejasse ser oculto, só mais tarde, com o que fosse iluminado. Mas principalmente por causa dos gritos. Eles vinham depois das orações. Muito por causa deles.


De noite a noite vêm as descargas comuns de consciência: resmungos, risadas, passos, suores e imagens simples, na maioria assim, muito sutil para interferir em matéria. Das ruínas mesmo eu as recolhia. Hannia bebia de perto só para olhar o fio prateado (ainda penso no dela com cor de luz, nunca vi). Era o que nos alegrava em parar rodeando lugares de permanência como aquele.


Só que os gritos que me chamaram não eram descargas medíocres: esses negavam imagens vulgares. Eram feitos de nomes de santos, pedaços de vigília, gotículas de sangue, sininhos de vidro, resto de raiva, palavras do éter, cansaço, pragas. Imagens, não. Me faziam nunca mais querer abrir os olhos. Eram gritos de ente com terra nas unhas. Gritos de anjo de cemitério, o cheiro de flor confirmava. Quis avisá-lo para não dormir de noite nem ficar só, mas antes que pudesse me levantar seus gritos vinham outra vez e abafavam mia coragem de abdicar deles. Ficava deitado embaixo da janela – eu mais uma canção que fiz, e uns desenhos – o anjo lá do outro lado do penhasco, prisioneiro.

Não salvei a criança sonâmbula. Tirei, porque era uma inconveniência. Naquela noite, quando mudou o ritmo da canção com o coração aos berros, ser vulgar incomodando meus sentidos apaixonados pelo terror sacro. Corria no sono, direto pra beirada, me fazendo desesperar, buscar na lembrança um medo horrendo para mostrar e assustá-la do precipício antes que pulasse e impedisse de vez o caminho dos gritos do anjo com sua (dela) carga de morte.

Foi uma nuvem de ódio que me atravessou – surpresa: ela me soube, sem nada para oferecer assombro, eu puro deitado debaixo da janela, querendo que acabasse em outro espaço que não fosse o meio do caminho, um intruso acusando as intenções suicidas, causando a ela vergonha, indignação bastante para me carregar. Talvez agora fosse por orgulho, mas se ainda não era segurei seus cabelos com as duas mãos, obrigando ela me encarar, criança rara de sonhos quase materiais. Nenhum propósito, só os horizontes embaçados. Forçou para se livrar, de repente os cabelos seriam arrancados (queria mesmo que fossem), fios castanhos de brilho, um que aborrecia tocar. Quis assustá-la dali, mas estávamos na rua, em sua casa, no beco fechado de muro do cemitério, na areia, nos cantos, na janela ALANA. Nenhuma ideia. Nem olhos. Nem medo. Nome. Eu tentando confiar em um chão, ou podia contribuir para que ela acabasse entre mim e as injúrias do anjo. Ela ali, que me fez meio doido. Apertei seus pulsos. Eram mesmo, eu poderia partir os ossos, as pontas dos dedos brancos ficavam roxeadas. E será que tinha súplicas? Será que tinha medo? Menina, você tem medo? Cabeça baixa, cabeleira cobrindo o rosto, me cansando com sua confusão de imagens, mais fortes que mi'as sugestões. Sou guardião da discórdia, lhe mostro: há um medo terrível nos rochedos, aonde você não irá mais. Não tem descanso naquelas pontas, só mais carga toda vez se voltar lá, e vai durar muito, por isso é só até a praia que você pode ir. Estamos na praia, estamos na praia, estamos na praia, estamos na praia, estamos na praia, na praia, na praia, na praia, na praia, na praia, na praia, na praia, praia, praia, praia, praia, praia, praia, praia

– Elemiah, solta, Elemiah, me solta – voz embolada pediu, choramingou dormindo, olhos abertos, embaçados, me examinou, os sinos da igreja soaram onze vezes, um bebê soluçou no berço, as últimas luzes se apagaram, algumas moedas caíram, os sons da noite recomeçaram, quase iguais. , senti um espanto.

No muro do cemitério. Despertei buscando os gritos do anjo que não me vieram antes dado o elemento menina. Senti ar livre: a criança trágica não viu comigo o tanto de jasmineiras, não se esgueirou pelas moitas de perfume floridas. Só a palavra antiga que convocara piscava sem parar: Elemiah – o anjo sem asas do catálogo do irmão. Que fazia ali aquele nome? Na confusão de túmulos que me perdia, no abandono que validava manifestações dos mortos, no escuro das estátuas, da brita empoeirando minhas botas, na quentura da laje de cimento onde deitei... Elemiah.

Veio zumbido que fez meu corpo leve, mas pesou a cabeça. Fiquei tonto, de jeito de cair, mesmo estirado, cair contentado, devia ter a ver com os gritos que vim reclamar, eles balançam nossas pernas, os espíritos obsediantes, nos balançam se estamos envolvidos demais pra vigiar. Eu queria os gritos do anjo, gritos do anjo! E eles se aproveitavam de mim desejoso, meio entorpecido. “As sobras não me deixam, mas uma sede valeria minha fome”, ouvi, complemento de música, de: uma canção dos mortos para: mim. Tentei abrir os olhos, me mexer, claro que não podia. Mas estava chorando? Não, era o anjo! “Elemiah.”
Eu sou Axel (seria qual das estátuas?), conheço suas noites – rolei para vê-lo, caí do túmulo. Riram os mortos; mais sua diversão, jasmins. Para me amortecer, eu propício, tudo o que procurasse recepção vinha: orações de mortos e jasmineiras em flor, tudo, tudo mesmo, espalhado pelo campo santo. Não podia vê-las, mas estavam lá, seu cheiro doce mais forte do calor.

“Elemiah.”

Não. Anjo, anjo, esse nome não é mais, ele veio sem querer. Axel, das ruínas, do rochedo.

Os sininhos de vidro – “Você tem sede?”

Me arrastei, aquele peso lá me obrigando deitado, que sede?, reuni força de subir nos joelhos, estava de quatro, procurando não rir do chão que se movia, não me perder nas pequenas ondulações da terra, cobria minhas mãos depois se afastava.

“Sede de consistência, sede morna” – primeira vez da obsessão. Começou ideia pequena, uma palavrinha nos pensamentos. Rechacei, ela voltou, apresentando textura viscosa de convite. Veio na língua, escorregando pelas papilas, enchendo a boca toda, vontade despropositada, gosto de ferrugem me rangendo nos dentes, aroma pervertendo as narinas, fazendo enxergar cor de carne, aspirar seu calor-desejo latejante nas fontes: o anjo sabia meus dois nomes, eu fora praguejado.

Mi'a desgraça estava na terra que eu varria com as mãos, no óleo essencial das jasmins, vermelho se chegava ao chão, transparente que podia tanto ser suor meu ou lágrimas de estátua com asas. Fui lambendo como podia, anjo, acorda, tira isso de mim, só que não servia, porque aquilo não era “beber”. Tinha de ter um sacrifício, tinha de ter coisas do ofício augusto: abnegação, tormento sublime, dor com deleite, arrependimento, cura, salvação.

Tlim. Tlim. Sorri, seus sininhos de vidro, acessórios dos gritos. Tlim.

– Ave...

Escândalo. Era um rosário! Anjo, quem reza pra você? Ele atendia. Anjo, acorda, isso não pode! Eu, parte da concessão. Anjo, são preces perversas, te laçam no sono, acorda, anjo, será sua queda! Voz de menina. Tudo trocado, Glórias invertidos, ela e o anjo dormiam, rezando no sono a criança pedia morte, no sono agindo, o guardião me fazia instrumento. Do penhasco eu me livrara; atraído ao jardim, a sede. Estou aqui, criança que reza, se der seu medo para mim., quis dizer todo vendido pra terra úmida e pro cheiro de flor; não deu, eu tinha de pedir o sangue. Para buscar isso pude me mexer, fui nos túmulos de beleza forçada, cada vez mais para o fundo, cimento colorido mas sem anjos, capelinhas-mausoléus, trepadeiras que quis tocar, e enfim a velha casa detrás da amendoeira, uma janela aberta cheia de perfume. As jasmins eram presas lá dentro, não adornos dos corredores de brita. Eu pisei nelas, no quarto socado de livros fazendo suporte pra velas acesas. Encontrei a cama suja de madeira escura, as paredes rabiscadas com tinta estranha, letras texturizadas, não é sangue, é carvão, tentei me convencer apesar dos coágulos. Quis os filetes que tinham escorrido dos excessos. E se lambesse eles só até amolecerem?

– Assim como era no... – voz engasgada, voz de pesadelo, do pesadelo sem imagens que cobiçava há tempos, da delícia com nomes de santos e pragas, e melhor: com medo. A menina do penhasco escorava com as costas a porta, sentada no chão, padecendo o calor de uma colcha grossa. Testa nos joelhos, mãos protegendo a nuca, desfiava um rosário de vidro com contas do tamanho de uvas e grande cruz enferrujada – caí de joelhos, nada me podia livrar. Anjo, ela está dormindo, não sabe o que pede, pensei em dissuadir. Anjo, acorda e vê. As chamas das velas se diluíam, as paredes trocavam de lugar, ela cheirava a flor e tinha a coisa úmida que eu queria. Menina, como pode me sujar sem cortes? Manchou meu rosto. Era sangue, tinha o ritmo da vertigem, sanava o desejo que me rendia, me fazendo incapaz de assumir corpo material.

“Foi você quem me machucou.”

Relaxava. Soltou o terço no chão, não se importou de ser descoberta. Era a morte que tanto pedia.

“Libertação” – me corrigiu sem dizer e isso não era estranho, sua matéria desprezada não
atrapalhava mais. Senti pelo medo desperdiçado, eu tinha ido lá pra ter, não veria nada?

– Mostra seu medo pra mim – pedi humilde.

– S... sobras – tremeu. Acordou ele debaixo da cama: feto morto, contaminando tudo de carne podre. Só gritos podem com medos assim. Alana não tinha mais eles. A coisa seguiria dominando o quarto, demos o direito quando chamamos ela. Passei os dedos na testa da menina, recolhi sua consciência: sem chance de reagir tomou parte comigo.

Do lado de fora detalhes novos apareciam, talvez porque simpatizassem com quem eu tinha no braço: senhores da necrópole ela e seu guardião do sono ruim. Na capela onde parei, uma extensão do quarto: no chão as jasmins, nos cantos os papéis, e desprezos, e belezas, e panos, cacos, velas, pertences alheios, ela também ajuntava coisas. Parecia criatura livre – tinha restos de sol nas maçãs e no colo. Uma fé terrível e medos robustos dando pra ela império do espaço abandonado. Quase simples, senão a insistência da obsessão em mim. Houve um gemido baixo, houve um quarto de madrugada, estava acordada. Olhos abertos, nenhum outro movimento, de minha mão fechada no bolso vi a consciência escapar. Fumaça branca.

Apavorada estranhava o terço no pulso, as paredes da capela, respirava pleno alívio. Não podia se lembrar do medo-pesadelo, com toda certeza, nunca podemos. Só saberia que teve mais um. Retraiu as sobrancelhas, uma centelha de dor. Apertou o peito, buscou cicatriz inexistente. Levantou, andou alguns passos, fraca ainda, caiu. Negou a estranheza sacudindo a cabeça, esmigalhou uma flor, esfregou no nariz, riscou a poeira do chão com a ponta do dedo, escreveu algo que eu nunca soube – quando fiz menção de chegar perto, percebeu e apagou com o pé o que tinha feito. Era minha atormentada. Eu estava sob obsesso de um pedido seu. Nunca soube de uma bênção retirada, mas ela devia tentar, acordar o anjo e mostrar que ele estava enganado.

– Não tem anjo, não tem poder, não tem nada disso – arrastou a voz, seus olhos inflamaram. Viam meus pensamentos, talvez vissem minha missão.

– Não vejo. Nem sei como é missão. Você pensa resmungando.

Também pulei o muro do cemitério quando ela fez isso, também alcancei a praia, também afundei os pés na areia de pouco a pouco mais limpa quando mais longe dos quiosques, também tive as rochas negras imensas amontoadas, formando o primeiro penhasco antes do meu. Do outro lado já era deserto e plena força de ondas com pedras grossas de corais. Alana não viu resistência nos arranhões que atraiu quando quis subir. Nem nos cortes, nem em escorregar procurando meios de subir mais. Era esse seu caminho, cumpri-lo assim tão fácil denunciava um hábito. Lá em cima deitou de bruços, deixou o rosto pender e receber aquele respingo de onda que chega, virou pra mim: lembrava da mi'a sugestão de mais cedo, da sugestão de agonia e de falta de descanso nas pontas de seu pesadelo. Estava de pé ao meu lado, Estava contornando a beirada com os dedos dos pés, mas tinha sandálias antes, não me lembro de quando tirou. Seus olhos não eram mais acesos, talvez porque sorrisse.

– Sabe, pode ser maldita a vida das bailarinas de caixa de música. Pode ser incólume – segredou: –Dançam sobre o espelho. E quando têm repouso, caixa fechada, a bailarina só um pedaço de dentro de concha.

Era ela e o abismo. – Abismo? As crianças que mergulham aqui encontram tesouros.

Foi por causa do trovão, mas não choveu. Ela caiu, e o trovão quis vir ao mesmo tempo, – Alana! – gritei, sem perceber que também escorregava.

– Seja livre, criança, pois meus anjos já lhe invejam a queda – foi o que ele disse. Me espantei, voz familiar. Uma daquelas pontas agarrou meu lado, me deixou suspenso e preso, puxado e empurrado a gosto. O mar vai ficar imortal... A ideia me veio, ri dela. Imortal, vai ficar do meu sangue... Vi minha dor tingir o escuro. Eu sei, irmão.

Sabia também ele rindo com a menina da brabeza das águas, virando ela de costas para que não afogasse, ouvi os gritinhos dos ombros brancos ardidos, da cabeça coberta, descoberta, coberta, a maciez da cortesia do irmão. Me livrei da pedra que me prendera, a água concretizou sua sedução: fui carregado, toquei no fundo da areia, tive ela dentro da boca, nos meus olhos, misturada no cabelo, enterrada debaixo das unhas, o mar reclamando poder sobre mim: me enrolava, embalava e doía, como doía, ah, dor abençoada, me consuma de uma vez. Veio o ar que encheu meus pulmões, era a expulsão. Deitado na praia, o lado magoado, ouvi joelhos arrastando na areia. Engatinhava até mim, testou meu rosto, mas estamos sozinhos, Alana? Estávamos.

Não importa o que aconteça, meu estado permanece.

“Eu sei”, respondeu.

Não há marca nem tempo que possa em mim.

“Em nós.”

Tinha sangue em seu rosto esfolado, eu todo alívio e sono. Era a obsessão que se aplacava.
“Sinto o sal em você, Elemiah. Sinto o gosto dele no céu da boca, cada cristal grudado em seus cabelos me fere no rosto, faz arder meus arranhões.” Insuportável continuar ali, mas eu não podia nem movimento mais banal com abrir os olhos. “Ele corre junto com meu sangue, Elemiah, raspa minhas veias, este mesmo sal, cauteriza minha circulação, este que quer você.” Estávamos na praia. Seu rosto me era um castigo, sua respiração uma dor: doía que eu encostava nela, doía que os cristais secavam pelo atrito e nos queimava a pele fina da boca, doía mas não nos queixamos.

Na praia, estava sozinho. A testa em brasa, como com ferida aberta no centro. Meus lábios tostados de sal puro imploravam umidade. Sal... Apertei a ardência com o dorso da mão, retirei-o carimbado de vermelho. Lembrei da criança, me acertara com seu estigma, com alguma coisa de concha e madrepérola. Fui com o vento, obsesso, só Alana, e sangue, Alana, e areia, Alana, e sal, e sangue, e sal, e areia, no bar de pobres insones, num canto sem manhã, Alana, Alana, Alana, Alana, a garrafa quebrada (sempre os cacos), risquei o nome, Alana, Alana, Alana, Alana, Alana, Alana, Alana, o homem chorou, estava com frio, bravo, não me acreditava, que eu estava fazendo?, ele ia me matar!, Alana, eu lambia e passava sal, era engraçado, acho que ardia, Alana, Alana, Alana, lá vinha o sol, o homem-página querendo saber se eu estava mesmo lá, cantava de tanto álcool; eu só podendo escrever, e cada traço sangrando.

Onde estava a menina? Por que a luz tinha de vir? Os barcos e as tarefas acordaram, os sonhos foram embora, eu ficaria cego. Corri na areia me derretendo os pés. Busquei as ruínas com as mãos nos olhos.

– Hannia, Hannia! – chamei, a zampona em repouso, rodei nos impedimentos da escada (gente, mato, restos de comida). Estava a salvo.
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MensagemAssunto: Re: Letras de Sal   4/20/2011, 5:07 pm

Amo as "viagens" da Ariel.

Galera podem ler que é da melhor qualidade!!! Very Happy

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MensagemAssunto: Re: Letras de Sal   4/20/2011, 9:43 pm

melhor das melhores isso sim. Gosto de como usa as palavras pra formar um texto tão...belo e maravilhoso como esse, realmente muito bom.
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Ariel Castaneda
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MensagemAssunto: Re: Letras de Sal   6/8/2011, 1:49 am

Dois gudes me esperavam do outro lado, garantiam: era dia. Tão ali que despertei, eles filtrando luz, verde precioso rajado, olho vidro de gato, a um passe de vento do meu rosto. Esperaram os restos de sonho me deixarem. Me permitiram costurar pedaços de verdade em volta, compor situação co’as interferências novas, a melodia de viola, não estávamos sozinhos, olhos de Hannia e eu. Alguém tocava pra nós, executava solos perfeitos, tanto que todo resto perdia em sentido.

– Venha, Axel, levante-se, venha ouvir de perto – falou antes do beijo. Beijou e eu sustentado, só vivo nesse contato, em lábios erguido. Caí – ela não mais em mim: – Há dias jaze neste porão, coberto de sangue. Tem tido pesadelos tão terríveis que seus gritos são capazes de diluir todas as iluzões que construo.

– A luz do sol não era pra destruir eu e você? – perguntei do chão, olhos fechados.

– É a Discórdia que tormenta seu sono? É ela? Ainda a vê como portadora de toda imundície? Não pode ser, Axel, sempre que a vejo está linda, pronta para conceder nova dádiva. Guarda você como a um filho, nossa deusa.

– Não é isso que eu falei, falei do sol! Precisamos de dormir agora, este sol, este não pode ser!

Fiquei odiando ela. Inventava pra falar, me fazia falar junto, deformava o se se ele virava voz. Hannia só sabe certeza. Do que falo, do que faço, ela? Faz certeza. Ela também ficou me odiando. Ela ficou explosão de poeira dourada, ondulando, ondulando, descendo até a cintura. Depois laranja seda arrastando no chão, e os dedos dos pés cheios de anéis. Estacou na porta: – Só vim pedir que não os salve mais. Não desfaça mais minhas iluzões.

– Sai!

Voltou: – Afundam-se no que vêm buscar, Axel. São ruínas, ruínas! Serão tão inocentes a ponto de achar que paredes antigas assim estão puras? Eles sabem. Todos sabem, até os limpos, sabem tanto que não se aproximam, já viu uma criatura livre aqui? Quem vem já está condenado, sabe o quer, que esse querer não pode ser saciado às claras, que são desejos marginais. Vêm buscar refúgio, abrigo, lugar para satisfações condenáveis lá fora. Ouve? Este só quer tocar – balançou a cabeça contentada. Me pisou no peito, me cobriu com a franja comprida, me alisou o sangue nas roupas, me acusou: – Ele quer tocar, está bem acordado, não o tormente com seus favores, meu salvadorzinho.

Que eu não me cure, pensei esperando o sol sumir, que eu não me cure, piscava sem perder a sonolência, que eu não me cure. Olhei para atrás da porta, não vi Discórdia. Ela sumia mais, mais perto que estava o litoral. Agora só Hannia via ela, diferente. Eu não. Um cheiro de maçã desceu a escada, a música da viola ficou suave de novo, quis levantar. Aquilo nas roupas incomodou – sem vício que justificava – incômodo foi virando nojo enquanto me livrava, com dificuldade, não suportaria tocar nelas, com rapidez pra não contaminar. Incinerei com a vontade. Rannia tinha uma banheira rachada, no salão, ferveu lá as maçãs para me comprar. A promessa: ficaria puro passando noite toda no vapor. Podia também beber as iluzões dos que chegavam. Eles vinham buscando. Nos degraus furados da escada de madeira, a que vinha dos quartos pro salão; emboladinhos gatos com roupa de festa. No meio dos nossos pertences juntados, faziam coisas que Hania adorava ver mas eu odiava ouvir. E se consumiam, riscavam paredes, viam brocado onde tinha bolor, trama puída e não importávamos. Bebiam nos banquetes de manjar impalpável, isso era engraçado, sempre, faziam suas penumbras, nunca sabiam se sonhavam ou não, caso Hanniah se metesse ficavam mais comprometidos do que com aquelas substâncias dos livros de fora, viam tanta mágica que nem sabiam catalogar por seus nomes primários, condão feito pela vontade deles de nunca soube o quê. Alguns se perdiam mesmo, lá debaixo dos sofás, se cobriam com uma porção de colchas, quebravam os espelhos, arrastavam as mesas, escondiam as lâmpadas dos abajures, achavam que iam roubar os metais, iam vender as outras coisas bonitas que também trouxemos de algum lugar e amontoamos pra sentirmos aliviados.

O solista não buscava nada. Deixou Hanniah fazer o que quisesse, tinha umas notas muito simpáticas. Vi meus cabelos molhados no espelho, murchos só enquanto pingavam, mesmo assim vermelhos. Hannia disse que eu não tinha barba porque éramos dissociados. Os solos eram indivíduos. Ela também percebia, sentada no chão, saia puxada, achava interesse no transe da música forçando os respondedores. Vi o autor. Solos indivíduos porque não respondia. Consciente aquele maldito, dei as costas para não me enxergar completo, como eu estava depois de banhar:

– Os que não sucumbem têm que ir embora!

– Mas eu quero que ele fique – Hanniah estava marcando as costas dele. Respirei cheiro de dor, pouquinho; irrecusável; mesmo que fosse um desenho enorme ele não ia gritar, vesti o casaco de uma mulher alta, tricô comprido até meus joelhos, flor lilás na beira da lã marrom. Tomei a calça de um homem adulto cheio de cócega, tive de amarrar com cordão. Calcei sandálias já conhecidas, já vi, pensei, sonhei com elas. O cheiro de dor parou um intervalo, Hanniah limpava excesso de tinta com pano.

– Ele ignora a dor – vi as linhas inchadas, novas, jardim cheio de voltas; vi músculo queimado de sol, cabelos ficando pálidos.

– É porque é velho, um pouco mais que eu. Só vou marcá-lo. Enquanto isso os deixa em torpor – vieram risadinhas da escada.

– Tem criança aqui.

– É. Não vão sucumbir aos solos, só escutam o que podem. Estão perseguindo os doces.
Passaram e desceram o rochedo, não nos viam. O solista, esse cumprimentaram.

– Hanniah, como é um anjo bailarina?

– É um anjo que você sonhou.

– E se ele sonha?

– Você bebe.

– Você disse. O fio deles é prateado, né?

– O do anjo, não.

Me olhou de raiva. Eu queria diáfana, como portal pra ser atravessado. Continuou ali. Luz demais, o anjo não dormia nesse tempo assim. Como é que eu ficava sem os pesadelos? Esperei mesmo, segurando as mãos, sentado na janela, só nesse dia eu queria ver lá fora. Ô anjo, sonha um pouquinho, me dá uns estilhaços com sol, tira a maldição. Ficou demorando. Depois de muito eu saí. A Hannia falou que não, mas o sol ia queimar. Então fiquei muito na janela, balançando as pernas. Depois, a casa no jardim. Queria não, queria os pesadelos do anjo, mas. Como não tinha, eu fui no beco, e do beco, no muro, do muro, na terra, dali me perdi, perdido, a casa. Janelas fechadas, presas. Paredes muito mofadas, a água que escorria da chuva. Mas a amendoeira de flores minúsculas amarelas subia seus galhos pelo telhado e suas parasitas, quase ninhos, tomavam conta dos vãos das telhas, me diziam, se quer estar é aqui.

Hannia falou da razão perdida. Razão que atestaria: um cemitério abandonado, infestado de últimas manifestações. Eu quis me submeter, fui ver o eco das alminhas. Agora ficava rondando casa inabitada, procurando criança sem encarnação. Isso, a blusa encardida, o rosário de padrão insólito. Aquele corte de cruz na barriga, não ia mais poder viver. Mas bebi o sangue, era real como ferrugem, calor de coisa viva na minha língua.

Me brotou um pingo de suor na testa, com calafrio. Escorei na amendoeira, eu quis acreditar, sem poder sentir as pernas, já deitado na terra. Deixei a conhecer meus dois nomes, meus pensamentos; aí, aqueles olhos! Não era coisa de criança comum. Eu estive murmurando orações que esquecera, estive rezando pra Hannia: me encontrasse ali e levasse pra casa. Isso, Hannia eu queria chamar, Hannia! Só falava Alana.

“Elemiah.”

Não era pra eu ter dito. Quis recusar, mas já ouvia. Ela não parava de chamar, este não é meu nome, sou Axel, menina enganada.

“Pode subir aqui.”

– Não vou – não devia responder – você está morta.

“Por que faz isso? Eu sou Alana. É dia dos gêmeos.”

Palmas das mãos no tronco áspero, ralei nele o rosto, unhas enterradas no limo, escalei os galhos grossos, puxando os talos das folhas, eu e o céu de imensidão esmagadora.

– Você vai comigo? – voz viva.

_ Vai dormir, não?

– Se eu dormir vejo o medo.

- É mesmo. Mas e se dormir na capela?

- O medo foi lá.

- A gente podia rezar.

Me olhou de espanto. Rezar como, porque se eu tinha virado um diabo
- Sou não.

- Então faz o sinal pra eu ver.

Comecei com o dedão na testa, mas tive ideia.

- Você ainda quer os doces?

Ela queria, corremos para as esquinas onde deixavam as balas, fui guardando tudo no bolso do casaco, ela pegava as velas também, e umas moedas. Queria as garrafas, que só atrapalhavam, esquecemos elas pra trás então.

- Espera, espera. A gente bebe e deixa aqui.

- É – ponderei groselha, suco, água doce com mel, de quatro em quatro caminhos, até dividir tudo na praia, ficamos cansados.

- Eu vou levar o remédio.

Não entendi o remédio. Era que a mãe estava doente. Mas eu ia pro casarão. Mas então que vá. Mas então eu não fui.

Do lado de fora sentia doente também, nauseado, queria sem poder sair, a mulher tossiu. Eu não ia olhar. Fiquei alheio. Sentei. Com a testa no joelho, perdi os movimentos, zumbido, obsediantes! Tosse, tosse, tosse. Subi devagarzinho, fui olhar pela fresta. Madeira da cama vermelha igual meu cabelo, mulher morta, Alana negou com a cabeça, aproximou o rosto ao hálito da mãe e sorriu que eu estava errado. Mas o cheiro que coisa que desfaz... Argumento do meu medo, meu medo vindo bem ali, pras duas verem, eu não queria.

Tanta água, era isso, som de riacho, retraí os pés pra não molharem, água com bolhas estourando e gordura, vapor me fazendo pegajoso. Ierathel, onde estava pra me tirar dali, queria fugir, mas tão pequeno... Mordi a língua para acordar, era um medo muito grande, eles mortos lá dentro, Alana, ela está morta.

- Não! - me empurrou.

- Está mas seu anjo não deixa. Precisa parar de rezar, acorda ele!

Senti um olhar na minha cabeça, a mãe me chamou. Alana, desconcertada, abaixou o rosto, não podia andar comigo, eu, maldito, som das águas de novo. Umidade morna chegando nas solas dos meus pés, escorregando entre os dedos, prendi a respiração. Alana, vamos sair, estão todos mortos aqui. Não queria que me tocassem, que me pousassem no rosto, caminhassem nos olhos, mas como eu ia mexer as mãos já mergulhadas na água suja, puxaram minhas pernas os malditos espíritos, afundei. O ar preso guardado devia ser entregue também, era tudo pra ser renúncia, eu tinha de abrir a boca, estavam mortos ali dentro, me aquecendo de matéria decomposta, estourei bolhas de gritos. Doeu a pressão das águas nos ouvidos, espasmos nos pulmões, superfície, para onde era?, não veio o irmão, emergi.

Só no quarto, velando a mulher coberta com lençol. Velas rodeando a cama escura, alimentadas de gás pestilento. Lá fora o ar era mais fácil, risadas da menina quando chamei, quis mesmo segui-las.

“Ah, mas você já me persegue” – folhas trincavam no chão, pés pulando de laje em laje. Onde estavam os túmulos sempre divisados? Que clareira era aquela de cruzes fincadas, inconsumível por mais que eu corresse? Nenhuma jasmineira, nenhuma capela, só o riso, e a praga das flores impedindo espaços vazios, aquilo era perfume.

Deitei de costas no chão, braços e pernas estendidos, segurei pela base as pequenas cruzes de madeira, tentei arrancar elas.

- Alana! - abri os olhos. Sim, jasmineiras, um, dois túmulos - Já passou a minha sede, posso deixar você.

- Mas ainda não deixou.

- Não deixei. Você come as pontas dos dedos, obedece aos rabiscos; se cobre de andrajos, e esse seu cabelo marrom, você também não sabe parar... Somos quase iguais. Por isso eu venho - ela estava com a pele empolada, sofrendo coceira. O mesmo para mim. Algo não devíamos ter feito.

- Não. Eu sou uma viva que vê você. Você e a beleza loira. Ficam no meio de nós querendo ser como, sugando e convencendo, porque é só o que podem fazer. Migalhas de existência.
Aumentava mais o prurido, eu me esfregava no chão; ela, resistia e esfregava as mãos em palmas sobre braços, pescoço.

- E você não abandona os pesadelos porque, acha, eles te fazem especial. É o único mistério que pode ter.

- Eu rezei para querer amar a vida. Tirei meu pedido de morte. Pode ir, não é mais instrumento.

- Se eu quiser, tormento você. Tormento e os medos vão piorar, e vai querer ser como pessoa, que vive, come, e faz coisas de pessoa. Coisas, trabalho, e obrigações e tempo.

Ela me odiou. Os olhos inflamaram, vi o fogo. Que desespero de coceira, tossimos, era que o ar estava fora de nós.

- Você não está aqui - entrou na capela - não fala, não é - fechou as grades, passou a corrente. Você está ido, não falo e não ando com idos. Não vejo.

- Para com blasfêmias. São blasfêmias, sabia? Se você reza, são!

Com uma escova coçou as pernas, cotovelos, braços. Não podia me ouvir, e eu não podia entrar. Eu não posso mais ela.
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