A Ilha da Noite

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 Sabor da Índia

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Pandora
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MensagemAssunto: Sabor da Índia   7/22/2009, 7:39 pm

“Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.”.
William Shakespeare

Nunca, após o pedido de David Talbot, aquela cria tão nova e graciosa de Lestat, pensei em escrever sobre mim mesma novamente.
Mas agora é diferente.
Agora, é quase tangível no ar, há uma ameaça. Uma ameaça de extirpação de toda espécie tão real e perigosa, ou mesmo mais, como quando nossa rainha se levantou de seu trono milenar pronta para espalhar por todo mundo terror e sangue. Mas Akasha passou, evanesceu com todos seus planos de Paraíso feminista e todo o resto de sua utopia louca. Entretanto, essa ameaça nova simplesmente nos impregna e persiste, misteriosamente sutil e destruidora e o fim de todos nós parece mais real que nunca e, como um comichão dentro de mim, apareceu a vontade de não ser esquecida.
Quase todo escritor diz que a escrita é uma forma de imortalizar-se e quase todo leigo que ouve desdenha a afirmação, mas, enquanto a caneta esferográfica moderna e barata faz surgir do meu punho essas letras em uma caligrafia miúda e feminina, estou crendo que não agora. Se você por em um ponto de vista de que perduro desde antes da queda de Roma talvez ache que seja petulância uma imortal querer se tornar mais inesquecível ainda, mas não o é, tenha certeza. É simplesmente medo.
Não riam, quem quer que leia isso, mas assim o é. Eu lembro de minha mãe, com seu túmulo falando de sua costura... O que ela é agora? Só petróleo provavelmente, ou, com sorte, faz parte de algum registro histórico. Não desdenho a humildade de minha mãe, mas, simplesmente, não é isso que quero para mim. Não quero fazer parte das que morrem caladas, mulheres, imortais ou não, que escondem seu relato, sua vida e seu sofrimento, que ficando mudas até o dia inevitável em que suas vidas tem seu ponto final, privam a humanidade de mais um valioso registro de aprendizado e experiências, por mais ínfimo que seja.
Muito eu já disse, na verdade uma grande parte, mas faltou uma parte fundamental. Ninguém, nem Marius, chegou a conhecer a Pandora das Índias, a verdadeira deusa de mármore sangrento, ninguém sabe quem foi aquela criatura sombria cercada pelos mortais de pele morena venerando-a em êxtase e de quem ela arrancava o coração no meio do rito.
Por que a frase de Shakespeare no começo? Não só por que realmente admiro este grande pensador, mas por que esta frase significa exatamente o que eu fazia comigo mesma ao continuar na busca pelo fugido Marius. Eu queria estar com meu amado, não apenas por mim, mas por ele. Sabia que Marius estava arrasado e destruído por que nossa experiência compartilhada de matar aquelas três jovens e obsessivas criaturas de pele morena que queriam ver os Pais mexera profundamente com Marius. Ele vira em si mesmo a capacidade de fazer mal a um semelhante e acontecera finalmente, vira o que era ser humano.
Vira a obscuridade da natureza humana na sua faceta mais sanguinária.
E enlouquecera, não agüentara aquilo. Talvez por ter passado sua vida como um rico historiador errante afundado em livros não tivesse parado para refletir sobre a verdadeira essência de seus semelhantes e – posteriormente – da essência de suas vítimas.
Mesmo uma brilhante mente como a dele precisava da experiência para se deparar com a realidade e nisso eu concordava com os iluministas, apesar de seu pedantismo espiritual e de sua soberba científica, a experiência era o gancho para comprovar a veracidade de qualquer coisa. E Marius vira que sua fé na raça humana não era assim tão... Verdadeira, por falta de palavra mais exata.
Então eu queria estar com ele, para auxiliar-lhe naquele momento difícil em que via-se frente a frente com a realidade nua e crua, queria ser uma muleta se não para aparar a inevitável queda, ao menos para amenizar a dor dela.
Mas, após percorrer Creta e outras partes da Grécia Oriental e da própria Itália atrás de meu amor e ser frustrada em todas as buscas, percebi que isso seria reduzir a mim mesma. Marius não fora homem o suficiente para expulsar-me, fugira, então agora teria de honrar aquele membro inútil que lhe pendia entre as pernas e agüentar a dor, se levantar sozinho da queda.
E aqui justifica-se a frase de William, eu simplesmente percebi que continuar buscando Marius seria acorrentar a minha alma. E a dele. Cada um de nós teria que crescer sozinho, aprender sozinho. A hora de recomeçar chegara.
Para evitar encontrá-lo, ironicamente, eu agora corria dele, fugia. Que ele procurasse a Lydia, Pandora ou quem quer que ele julgasse que eu fosse. Que procurasse para, como o povo diz, “dar com os burros na água.”. E, naquele momento, quanto aos burros de Marius, queria que eles se afogassem.
Um pouco do que aconteceu, eu narrei, como meu único encontro sobrenatural com aquela coisa que parecia um espantalho, no derradeiro fim da Era Clássica e Marius encarregou-se de contar sobre minhas circulares voltas pela Europa Oriental.
Mas sobre a Índia ninguém sabe, e, pensando bem, será um prazer revelar a qualquer possível posterioridade e será um prazer relembrar.
Para mim, a Índia é atemporal. Tão moderna e arcaica agora, naquele período, andar por dentre aquela turba agitada do belo povo exótico e moreno simplesmente me avultou a alma. Ainda que eu estivesse coberta de véus escuros para não espantar ninguém e para atacar de forma mais sorrateira, pude olhar alguns olhares de estranhamento.
Mas eles não foram, realmente, algo a se preocupar.
Até o dia do faquir. Já muito tempo após minha chegada ao continente asiático, séculos, talvez.
Ele me olhou e disse:
-Você transcendeu há tempo o limiar da mortalidade, não é minha querida? – isso foi uma frase sussurrada em meu ouvido em meio a uma feira de mercadores barulhenta, mas que pude captar com perfeição devido a minha natureza vampiresca.
Voltei-me e encarei-o espantada. Era uma figura miúda, magra e idosa, a pele de uma cor de ébano que o divergia dos outros a meu redor, devia vir do Egito ou da África, ou ter ancestrais de lá. Tinha traços angulosos, um queixo pontudo e nariz aquilino, mas o que chamava atenção era a vivacidade daqueles olhos. Aqueles olhos, nunca me esquecerei deles, eram duas chamas ardendo com fúria e vitalidade.
E ele riu. Era um riso límpido e alto, e, mesmo em meio a cacofonia de vozes e relinchar de cavalos e a sons vindos de outros bichos, chamou a atenção. Retirei-me para um canto sabendo que ele me seguia, para não chamar a atenção.
-Como você sabe? – sussurrei, perguntando.
-Minha cara – ele disse – o mundo é mais sobrenatural do que você pensa.
Séculos após ele me dizer isso, li alguns contos Lovecraft e um de W. W. Jacobs chamado ‘A pata do macaco’, creio que poucos conheciam a natureza da mística indiana que aqueles dois e outros posteriores autores referenciavam em suas obras como eu.
Isso por que quando aquele faquir encostou sua esquelética mão em meu pulso, não temendo minha carne sobrenatural, e me guiando por dentre as vielas da já louca arquitetura urbana indiana, enveredando corajosamente através de vielas perpendiculares e por algumas passagens inacreditavelmente convexas, ele me levou até um lugar onde o que julgamos “sobrenatural” nada tinha de “sobre”.
Eu adentrei numa construção retangular, larga e comprida, com a fachada com de bege, nada especial, nada bela.
Mas o que havia ali dentro... Eu nunca esquecerei.
Ao escrever para David e outros leitores que a única experiência sobrenatural minha fora a com a coisa-espantalho, não mentira. Não mesmo.
Por que, quando adentrei verdadeiramente aos mistérios da Índia, eu vi que a palavra “sobrenatural”, como os físicos dizem, depende do referencial.
Feitiços, poções, a alquimia do espírito, o limiar da obscuridade e da luz eu ali presenciei. Mulheres incorporando espíritos sexuais em orgasmos masoquistas alucinados, emitindo gritos lacerantes, criaturas andrógenas que correspondiam piamente a descrição do renascentista Leonardo, o pintor da Gioconda e tantos segredos de mundos, esferas, dimensões, realidades inacreditáveis, trocas de corpos e tantos outros segredos que nunca, antes, Lydia ou Pandora imaginaram tanger.
Na realidade, quando estive naquele lugar, e não foi uma única vez, e bebi o sangue, e saboreei corações de seres humanos que haviam apreendido o saber muito além do compreendido por nós até hoje, eu não era nenhuma delas.
Eu era, lá, naquela orgia louca da magia indiana, uma mulher no afloramento do meu sexo, eu era um ser humano estarrecido com cada novidade que descobria e era uma criatura imortal encontrando alguns pedaços do que era seu mundo, atrás e intrínseco ao véu da esfera da mortalidade. Era tudo e nada. Era o mal e o bem.
Era o mais puro de minha alma em todas as suas facetas e em nenhuma delas, acho que essa expressão pode definir algo do que eu fui ali.
Essas experiências de cunho espiritual e, deixem-me usar o termo, científica – por que não sou pedante a ponto de crer que a ciência se limite a realidade daqueles cruéis, longos e dificultosos cálculos – perduraram até a morte do faquir.
Acreditem que, para os mortais, ele ainda viveu bastante. Não me deixou dar-lhe o Presente das Trevas e eu respeitei sua vontade. Ele tinha um filho, Arjun, com o qual me envolvi cada vez mais posterior a morte do velho e a quem não deixei perecer, ao saber que estava a beira da morte após um ataque de um mísero ladrão, esses de viela.
Foi ao olhar para o belo e tão vivaz Arjun, ao encarar aquele ser com um fogo nos olhos tão parecido com o que eu vira nos de seu pai da primeira vez que o fitei que eu soube que era a hora de findar a minha aventura pela magia hindu e enveredar por outros aspectos da Índia. E, com aquele belo ser ao meu lado, meu novo amante, fomos experimentar o resto do que a Índia tinha a oferecer.
Passamos muitos anos lá ainda, vagando por dentre suntuosos palácios e sorrindo para sultões riquíssimos em nossas farsas como mortais exóticos e excêntricos. Mas, aos poucos, como revelei a Marius, em meio a choro e coisas quebradas numa Europa agora tão distante, a vivacidade que Arjun tinha, herdada de seu pai, me controlou, talvez por que a minha mesma aos poucos, de modo gradual e imperceptível tinha virado cinzas. O fogo nos olhos de Arjun, percebi, era unilateral, não era compartilhado como o de seu pai, era algo que nutria apenas a e por si mesmo.
E, bom, o resto, vocês sabem.
Eu abandonei Arjun algum tempo após o encontro com Marius, na Rússia czarista, e só o vi novamente quando Akasha ressurgiu.
Embora curto, espero que esse relato tenha sido fiel, ao meu sabor da Índia.
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Jaja de Lioncourt
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MensagemAssunto: Re: Sabor da Índia   7/22/2009, 8:55 pm

Grande Pandora.

Voltando em GRAAAANDE ESTILO!!!! cheers

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MensagemAssunto: Re: Sabor da Índia   7/23/2009, 8:51 am

Bem,vamos lá: Não gostei porque achei uma pequena falta
de introsamento,a escrita bem aplicada,afinal um teclado bom sempre ajuda
isso,apenas acho que a história está muito certinha para os personagens,isso
me inrrita...
História monotona demais me inrrita.

Português perfeito devido ao bom teclado,mas o modo monotono de conta e o
que quebrou o impasse,essa e minha opinão,mas valeu ai Pandora.E isso.

E sabe?Ninguêm tem lá um bom teclado,não e?Cá vamos nos:Escrever pela Net
e totalmente diferente do que escrever em caderno,essas coisas....Isso referente
a suas palavras em minhas opiniões...Posso estar sendo coêrente demais,mais a
minha pessoa prefere ser sincera...

E isso....Merci má chére.

E tambem quero dar um pequeno complemento: O nome e realmente inesperado e
nem acho que combine muito com o que os personagens são....*Sabor Da India*...
Nossa,essa foi realmente para desconcertar e ser uma espécie de piada....


Última edição por Ana du Point du Lac em 7/23/2009, 8:58 am, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Sabor da Índia   7/23/2009, 8:57 am

OAHEOHAOH; aaah, não consigo me segurar, velho! ><

Eeeita ciúmes. Só porque arrumou concorrentes na escrita... (:

Yasmim, ficou ótimo, cara, e eu já te disse que ADORO sua Pandora. *-*
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Pandora
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MensagemAssunto: Re: Sabor da Índia   7/23/2009, 1:26 pm

Monótono? Bom, eu só narrei a minha opinião do que aconteceu com a Pan, mas a idéia da Índia veio da mente da Anne Rice. Bom, eu gosto do título, veio de uma música do Aerosmith, taste of India. E meu português não é perfeito por causa de um teclado e sim pq eu acho que como cidadã brasileira o mínimo que devo fazer é honrar minha língua e não assassiná-la, como uns e outros fazem.
Ademais, muuuuuuuuuuuuuito obrigada Jaja e Ti! *o*
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MensagemAssunto: Re: Sabor da Índia   7/23/2009, 1:33 pm

Por nada, Yasmim! *o*
E assino embaixo nessa sua declaração de amor ao país. (L)
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Lady Mandy
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MensagemAssunto: Re: Sabor da Índia   7/23/2009, 5:34 pm

olha, não acho que seja português de corretor de word, até pq o word só te dá dicas de ortografia, não te ajuda a construir um texto. Seria a mesma coisa que traduzir um texto do português pro inglês no tradutor do windows e esperar que faça sentido...

eu mesma não escrevo no word, escrevo no bloco de notas, até pq pesa menos no pc.
tenho confiança nos meus conhecimentos da lingua portuguesa assim como acho q a Yas tb tem.

de resto, eu gostei bastante do texto. é algo que eu sempre quis ler no livro da pandora.
monótono? talvez por ter sido muito curto e ter mostrado os fatos somente em linhas gerais. Se tivesse desenvolvido mais a personagem talvez ficasse mais legal.

opinião: não tenha medo de escrever mais, amor!!! nós adoramos ^^y
e realmente o título não ficou muito feliz... meio q uma mstura de Sabor da Paixão com Caminho das Indias XDDDDD Mas isso são detalhes... na próxima tenho certeza q será ainda melhor! =*
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Pandora
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MensagemAssunto: Re: Sabor da Índia   7/23/2009, 8:43 pm

Mandyyyy *aperta* realmente, esse texto foi curtinho pq o escrevi "as quatro mãos" e adorei sua opinião! Bom, quanto ao título eu percebi que soava meio "romance de banca de revista", mas aqui está o por que;
http://letras.terra.com.br/aerosmith/70705/
*ama o Aero lol! *
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MensagemAssunto: Re: Sabor da Índia   7/23/2009, 10:59 pm

Yasmim, continue sempre escrevendo! Sua Pandora é maravilhosa e, como eu já te disse em pvt, melhor ainda do que a de Anne Rice.

E sua escrita é impecável! Amo milhões! Seu uso de palavras é maravilhoso e sua escolha de sentimentos é fantástica.

Concordo com a Mandy, a unica falha da fic foi ter sido curta demais!
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MensagemAssunto: Re: Sabor da Índia   

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